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quinta-feira, 2 de junho de 2011

Seminário sobre a Educação no Brasil

O PROCESSO DE INCLUSÃO DO SURDO NA FACULDADE METROPOLITANA DE MANAUS – FAMETRO


Katiania Barbosa de Oliveira[1]
Faculdade Metropolitana de Manaus-FAMETRO
Paula Francinete Gomes[2]
Faculdade Metropolitana de Manaus-FAMETRO

Resumo
A Faculdade Metropolitana de Manaus em seu Curso de Pedagogia com ênfase em Educação Especial, diferentemente de outras instituições desta cidade, tem em seu grupo de discentes alunos surdos, incluídos no processo educacional acadêmico. Motivados por este diferencial objetivamos com este trabalho conhecer como se deu o processo de inclusão do surdo no curso de pedagogia nesta instituição, e mais que conhecer analisar o mesmo, identificando junto aos professores do curso a metodologia utilizada a fim de favorecer o processo de ensino-aprendizagem do aluno surdo e compreender junto aos intérpretes de Libras, quais desafios vivenciados por eles neste processo. Esta por sua vez caracteriza-se numa pesquisa qualitativa, para a qual utilizamos como suporte metodológico entrevista, observação, consulta de documentos e coleta de dados por meio de análise destes. O curso de Pedagogia tem hoje cerca de 400 graduandos, sendo que 08 (OITO) alunos são deficientes auditivos, ou seja, apenas 2% dos alunos matriculados no curso de pedagogia são surdos e para cada turma que tenha aluno surdo a faculdade dispõe de um intérprete como reza a lei nº 10.436.

Palavras-chave: Inclusão, Políticas Públicas, Surdez.
Introdução
Na atualidade muito tem se discutido sobre inclusão escolar, tanto no que se referem aos alunos em situação de deficiência quanto a outros grupos tais como: o negro, povos indígenas, mulher, religião, enfim, parafraseando Freire, o grupo dos excluídos.
A Faculdade Metropolitana de Manaus em seu Curso de Pedagogia com ênfase em Educação Especial, diferentemente de outras instituições desta cidade, tem em seu grupo de discentes alunos surdos, incluídos no processo educacional acadêmico.
Motivados por este diferencial objetivamos com este trabalho conhecer como se deu o processo de inclusão do surdo no curso de pedagogia da Faculdade Metropolitana de Manaus, e mais que conhecer analisar o mesmo, identificando junto aos professores do curso de pedagogia a metodologia utilizada a fim de favorecer o processo de ensino-aprendizagem do aluno surdo e compreender junto aos intérpretes de Libras, quais desafios vivenciados por eles neste processo
Desta maneira, este projeto justifica-se pela inquietação de conhecer o processo de inclusão pelo qual os alunos surdos do Curso de Pedagogia estão inseridos tomando por base os documentos orientadores da Política de Inclusão: nova LDBEN, Declaração de Salamanca, Declaração de Jontien, a lei 10.098 de 23 de março de 1994 que dispõe  sobre a acessibilidade da pessoa com deficiência tratando de adaptações físicas e comunicativas para o atendimento e encaminhamento para inclusão no seio social, a lei 10.436/2002 que reconhece a língua brasileira de sinais LIBRAS como a língua natural do surdo que em seu artigo primeiro relata que,
Art. 1º É reconhecida como meio legal de comunicação e expressão a língua brasileira de sinais – LIBRAS e outros recursos de expressão a ela associadas.
Parágrafo único. Entende-se como Língua Brasileira de Sinais - Libras a forma de comunicação e expressão, em que o sistema linguístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constituem um sistema linguístico de transmissão de ideias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil.

Com base neste reconhecimento, a comunidade surda se amparou para participar dos processos de cidadania oferecidos pelo estado, pois ter uma língua reconhecida foi um avanço significativo, pois a partir de então, a sociedade já terá outro olhar, mais sensibilizado.
 Em dezembro de 2005 houve a regulamentação dessa lei com o decreto 5626, onde foram traçadas diretrizes para a formação de professores de letras com ênfase na língua brasileira de sinais, e dentre essas diretrizes também há a obrigatoriedade da disciplina de libras e de que as instituições públicas e privadas passarem a oferecer atendimento aos surdos com a presença de intérprete de libras.
O interesse em identificar como foi e como está sendo o processo inclusivo dos discentes surdos se dá pelo fato de estarem dentro da concepção de política atual de educação inclusiva, diferente de outros tempos onde à imposição da oralidade que de acordo com (SKLIAR, 1999, p.7) trazia o modelo ouvintista, dispersando a língua natural dos surdos que é a língua de sinais. Pois o grupo de alunos recebe a atenção referente à diferença linguística assim como possuem o acompanhamento de intérpretes de LIBRAS.
Os caminhos da busca
Tanto a ciência como sua evolução dependem da pesquisa, pois esse é o caminho pelo qual é possível investigar o homem e seu mundo. Assim vemos a metodologia como fundamental para que esta seja efetivada. De acordo com Frigotto,

[...] quando iniciamos uma pesquisa não nos situamos num patamar “zero” de conhecimento; pelo contrário, partimos de condições já dadas, existentes, e de uma prática anterior, nossa e de outros, que gerou a necessidade da pesquisa ao problematizar-se (2000, p. 87).

Esta pesquisa busca compreender e explicar a dinâmica das relações que trazem em seu bojo.
Esta por sua vez se fará numa Pesquisa Qualitativa, para a qual utilizaremos como suporte metodológico entrevista, observação, consulta de documentos e coleta de dados por meio de análise destes.
De acordo com Chizzotti, (2001) a coleta de dados não é um processo de acumulação e linear cuja frequência, controlada e mensurada, autoriza o pesquisador, exterior à realidade estudada e dela distanciada, a estabelecer leis e prever fatos (p. 59). Pelo contrário, requer do pesquisador tempo suficientemente necessário, para que este possa conhecer a realidade nas diversas etapas da pesquisa e na interação com seus sujeitos.
Para efetivação deste estudo realizaremos entrevista semiestruturada com a comissão do vestibular da Faculdade Metropolitana de Manaus, a fim de verificar a entrada do surdo no meio acadêmico e como esta comissão estabelece critérios para elaboração e realização de provas para este público. Pretendemos ainda através de relatos de vida conhecer o processo da aquisição da língua de sinais do aluno surdo, tendo isto como um fato relevante para entendermos inúmeros motivos de dificuldade de aprendizagem. Entrevista semiestruturada com os professores para melhor compreendermos como se dá o processo de ensino-aprendizagem dos alunos surdos, entrevista semiestruturada com alunos ouvinte para melhor conhecer como se dá o processo de interação/inclusão entre aluno ouvinte e não ouvinte e por fim questionário aberto e fechado com os alunos surdo e intérpretes de Libras para compreender como eles se sentem nesse processo de inclusão.
Para coleta dos dados referente às entrevistas com os surdos, será usada uma câmera filmadora digital fato este de grande relevância para o bom êxito deste trabalho, pois os alunos surdos utilizam a Língua Brasileira de Sinais que é uma língua de modalidade visual-gestual, que usa as mãos em vez da voz e os olhos em vez do ouvido.  A esse respeito (Silva 2001, p. 43) diz que “a qualidade comunicativa dos surdos e a constituição do pensamento estão nas mãos (e em todo esquema corporal), pois eles podem executar com perfeição o mesmo papel atribuído ao sistema fonador por meio da Língua de Sinais”.
Breve histórico da educação do surdo
A educação das pessoas surdas sempre foi desenvolvida de forma preconceituosa, onde a desigualdade social sempre prevaleceu. Desde a antiguidade acreditava-se que as pessoas com algum tipo de deficiência não podiam ser educadas, eram consideradas aberrações da natureza e sempre foram rotuladas como pessoas incapazes não tendo a oportunidade de participarem da sociedade.
Nesse mesmo período as crianças que nasciam com alguma deficiência chegavam até mesmo serem mortas sem nenhuma culpa por parte da sociedade.
 Por volta de 335 d.C. aparecem importantes filósofos, como Aristóteles que acreditava que o pensamento era desenvolvido por meio da linguagem e a mesma com a fala, e por isso afirmava que o surdo não pensa, e que por isso não podia ser considerado humano. (GOLDFELD, 1997, p.24). Com isto o processo de reconhecimento das pessoas diferente, no caso aqui o surdo, fica ainda mais distante.
No fim da Idade Média e início da Idade Moderna os surdos e todos os tipos de deficientes passam a ser alvo de interesse da medicina e da religião. É importante lembrar que, nesta transição, o homem passou a ser visto como o centro do universo, uma vez que no período do Humanismo Renascentista com os conceitos de amor a natureza e ao corpo humano, firmou-se o pensamento baseado no conceito de pessoa e de sua superioridade sobre as forças da natureza, que desta forma trouxeram algumas mudanças na vida das pessoas surdas e deficientes como um todo (SILVA, 1998, p.1).
A partir desse momento surge uma nova perspectiva para as pessoas com problemas de surdez, percebe-se que eles poderiam sim falar de uma forma diferente e a percepção de que com o auxilio de pessoas para ensiná-los a falarem esse grupo de “diferentes” passou a ter um maior significado para todos eles e assim começaram a fazer parte da sociedade.
No final do século XV ainda não havia escolas especializadas para surdos, pessoas ouvintes tentavam ensinar aos surdos através de sinais, linguagens escrita, treinamento de voz e leitura labial. Nos séculos seguintes alguns professores dedicavam-se à educação dos surdos, mas, divergiam quanto aos métodos mais indicados a serem adotados, entre eles, priorizavam a língua falada (método oral puro) outros utilizavam a língua de sinais e o ensino da fala (método combinado).
O método oral puro foi à primeira tendência que apareceu na educação dos surdos, e é o processo pelo qual se pretende capacitar o surdo na compreensão e na produção de linguagem oral e que parte do princípio de que o indivíduo surdo, mesmo não possuindo o nível de audição para receber os sons da fala, pode se constituir em interlocutor por meio da linguagem oral (SOARES, 1999, p.1).
O método combinado é a utilização da língua de sinais que nos reflete a Libras, que é a mistura da língua de sinais francesa com os sistemas de comunicação já usados pelos surdos.   
Muitas mudanças foram alcançadas, novos conceitos surgiram, e a partir de um novo contexto, iniciam-se várias pesquisas e estudos sobre o desenvolvimento do deficiente auditivo.
No século XX aumentou o número de escolas para surdos em todo o mundo. Diversos países passaram a encaminhar as crianças surdas para a escola, onde reivindicavam um ensino de qualidade e acesso aos meios de comunicação. No final do século XX, os surdos assumiram a direção da Gallaudet University Library (EUA) e passaram a divulgar a Filosofia da Comunicação Total.
A primeira Universidade voltada para os surdos foi a Galludet University Library fundada em 1864, que introduzia o estudo sobre surdez , linguagem e educação onde lutavam para o acesso do surdo com a Filosofia da Comunicação Total que é uma proposta flexível no uso de meios de comunicação oral e gestual para maior entendimento dos surdos na sociedade.
Na década de 90, a partir da Declaração de Salamanca, as políticas de diretrizes da Educação Especial começaram a mudar e passaram a ter subsídios na proposta da inclusão.
Podemos encontrar nessa declaração a seguinte afirmação: o surdo deve ser inserido de fato, para que possa ter sua cidadania respeitada (Declaração de Salamanca, 1990, p.2). E é neste sentido que é tão necessária a existência de políticas efetivas para o surdo.

EDUCAÇÃO DO SURDO NO BRASIL

A educação no surdo no Brasil, data do século passado, na década de 50, sob a Lei nº 839 de 26 de janeiro, assinada por D. Pedro I quando aconteceu a fundação do Imperial Instituto dos Surdos.
A fundação deste Instituto deve-se ao surdo chamado Ernesto Huet, francês, professor e diretor do instituto. Quando chegou ao nosso país foi apresentado ao Imperador, que facilitou a fundação do Instituto Santa Terezinha em 15 de abril de 1829, oferecendo atendimento sócio pedagógico.
No governo do Presidente Emílio Garrastazu Médici, priorizou-se a melhoria do atendimento ao deficiente. Foi criado o CENESP- Centro Nacional de Educação Especial, extinguindo-se a Campanha Nacional da Educação dos Surdos.
Precisamos sempre estar atentos a todas as mudanças para acompanharmos a reestruturação que há nos Ministérios e na Secretaria de Educação Especial.
Agora no cenário brasileiro depara-se com um novo paradigma o da Inclusão Social dos portadores de necessidades especiais. A Declaração Social dos Direitos Humanos em 1948 foi aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, a qual afirma o princípio da não discriminação e proclama o direito de toda pessoa à educação.
A Declaração de Salamanca, documento resultante da Conferência Mundial sobre necessidades educativas especiais (1994), ocorrida na cidade de Salamanca na Espanha promoveu uma plataforma que afirma o princípio e a discussão da prática de garantia de inclusão de crianças especiais, nestas iniciativas bem como a jornada de seus lugares de direito, numa sociedade de aprendizagem.
A inclusão do aluno surdo no ensino regular é, portanto, determinante para o seu desenvolvimento enquanto participe de um contexto sócio cultural, pois valida o comprometimento do real propósito escolar. Sabemos que o aspecto fundamental para o desenvolvimento do homem, principalmente quando reporta déficits como o caso em estudo, já que implica grandes dificuldades de interação devido o comprometimento da perda auditiva, pois esta acarreta pouca ou nenhuma socialização com as pessoas ouvintes e, portanto, necessitam de intervenções pedagógicas, familiares e sociais para ser agradável necessária e socializadora, sua participação com o mundo que o cerca.
Sendo assim, é de vital importância contextualizar conhecimentos com toda a escola, seres docentes, técnicos e profissionais que diretamente fazem dinâmica do funcionamento continuamente na evolução de seus aprendizes: conhecimentos tais, acerca da deficiência auditiva, suas aplicações e restrições para a comunicabilidade oral e escrita suas possibilidades e intervenções psicopedagógicas com propostas de currículos viáveis ao aprendizado destes portadores de necessidades especiais.
A inclusão representa, portanto um grande desafio para as escolas que estão sendo chamadas para levar em conta a ampla diversidade das características e necessidades dos alunos, adotando um modelo nele centrado e não no conteúdo, com ênfase na aprendizagem e não, apenas, no ensino.
Em Manaus existem instituições que são voltadas diretamente para as pessoas portadoras de necessidades especiais, dentre elas podemos destacar: a Associação Pestalozzi do Amazonas, que é uma entidade filantrópica que através de convênios com órgãos públicos, doações de voluntários, amigos e funcionários atuam em prol da educação dos portadores de necessidades especiais desde 1979; a APAE que é a Associação de pais e Amigos dos Excepcionais, foi criada em Manaus em 1973, porém, em todo o país se destaca na educação dessas pessoas, Felipe Smaldone que utiliza o método de oralização para os surdos.
Dentre as faculdades existentes em Manaus a FAMETRO se destaca com a inclusão dos surdos no ensino superior, dispõem de interpretes e um ensino de qualidade onde os surdos podem interagir com os alunos ouvintes.   

  Políticas Públicas e Surdez
A conquista dos portadores de deficiência é uma luta por meio de medidas isoladas e coletivas, que foram iniciadas a partir do século passado.
            O processo foi lento, porém, contínuo, até que a conscientização da sociedade e dos próprios deficientes fez com que leis, que são os instrumentos políticos e sociais de um país, começassem a surgir beneficiando e garantindo os direitos das pessoas com deficiência.
            De acordo com Carvalho, lei é um conjunto de normas e de regras de direitos impostos pelo Poder Legislativo ou por autoridades competentes (2004, p. 30).
No Brasil muitas leis garantem os direitos das pessoas com necessidades especiais, entre elas podemos citar a Lei Maior, a Constituição Brasileira de 1988, que em seu artigo 208, preceitua: o dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de: [...] III – atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino.
A Lei n.° 7.853/89, que dispõe sobre o apoio às pessoas com deficiência, sua integração social e define crimes relacionados ao preconceito.
A Lei n.° 10.098/2000, que estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida.
O Decreto n.° 3.956/2001, que aprova a Convenção Interamericana para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Pessoas Portadoras de Deficiência. No entanto, a grande dificuldade está em se fazer cumprir o que preceitua a legislação.
Temos ainda a Declaração de Salamanca, que resultou da reunião de aproximadamente 92 países, na Espanha, reafirmando o direito à educação de cada indivíduo, conforme a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional n.º 9.394/96, em consonância com a Constituição, estabelece no Capítulo V, regulamentos para a educação escolar de portadores de necessidades especiais.
A Resolução n.° 2, de 11 de setembro de 2001, Parecer n.º 17/2001 do Conselho Nacional de Educação – Câmara de Educação Básica institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica e a Resolução n.° 155/2002 do Conselho Estadual de Educação do Amazonas estabelece os critérios para o Sistema de Ensino do Estado do Amazonas e institui diretrizes para a Educação Especial garantindo aos educandos com necessidades especiais uma formação geral comum, bem como o desenvolvimento de atividades produtivas que os conduzam ao exercício da cidadania plena.
E não podemos deixar de mencionar os dois documentos legais que embasam nosso trabalho, a Lei n.º 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – Libras e o Decreto que Regulamenta a Lei no 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - Libras, e o art. 18 da Lei no 10.098, de 19 de dezembro de 2000.
A lei nº 10.436 define a Libras como a forma de comunicação e expressão, em o sistema linguístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constitui um sistema linguístico de transmissão de ideias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas no Brasil (art. 4º). Esta por sua vez não define uma em detrimento da outra, mas defende a educação bilíngue, sendo a língua materna do surdo é Libras e não a língua portuguesa.
Neste sentido como afirma Novaes (2010), A educação é que deve ser bilíngue e não a política pedagógica formadora do espaço educacional, ou seja, a educação do surdo deve ser realizada em um contexto educacional em que se envolvam as duas línguas, e não o espaço educacional (sala de aula) que deve ser bilíngue meramente por agrupar pessoas surdas e ouvintes.
O Decreto nº 5.626 regulamenta a lei supracitada, mais conhecida como a “Lei de Libras”.
Em seu capítulo VI, trata sobre “a garantia do Direito à educação das pessoas surdas ou com deficiência auditiva” e ainda em seu artigo 22 determina que as instituições de ensino responsáveis pela educação básica devem garantir a inclusão de alunos surdos ou com deficiência auditiva.
Determina ainda que os alunos têm direito à escolarização em turno diferenciado ao atendimento educacional especializado e que as instituições federais de ensino, educação básica e superior devem proporcionar aos alunos surdos, por meio dos serviços de tradutor e intérprete em sala de aula e outro espaço educacional.
Todavia a realidade educacional observada difere e muito dos textos legais, pois ainda existem muitas pessoas surdas fora do contexto escolar - seja ele inclusivo ou mesmo especial – por falta de efetivação destas políticas.
Resultados Parciais
O curso de Pedagogia tem hoje cerca de 400 graduandos, sendo que 08 (OITO) alunos são deficientes auditivos, ou seja, apenas 2% dos alunos matriculados no curso de pedagogia são surdos.
De acordos com entrevista semiestruturada com a comissão do vestibular da Faculdade Metropolitana de Manaus, verificamos que a entrada do candidato surdo no meio acadêmico se dá através do vestibular comum aos candidatos “ditos normais” com alguns critérios estabelecidos pela comissão do vestibular, tais como: a indicação da deficiência no ato da inscrição, a presença de um intérprete na realização da prova e uma equipe específica para correção destas provas, uma vez que esta correção não deverá ser realizada como para um aluno “dito normal”, pois para o aluno surdo sua língua é Libras, e desta maneira sua escrita não corresponde às normas da língua portuguesa. A equipe da correção de provas deve estar a par desta diferença que não pode ser desconsiderada.  
            No período em que se encontram alunos com surdez, a faculdade oferece um intérprete em sala de aula, pois de acordo com a Lei 10.436 de Maio de 2005em seu artigo oitavo assegura que,

As instituições de ensino da educação básica e superior, públicas e privadas, deverão garantir às pessoas surdas acessibilidade à comunicação nos processos seletivos, nas atividades e nos conteúdos curriculares desenvolvidos em todos os níveis, etapas e modalidades de educação.

            É importante ainda salientar que todos os intérpretes de Libras têm formação superior completa e ainda o certificado do pró-libras do MEC, exigência para o exercício da profissão.
De acordo com as observações a relação professor x aluno é satisfatória, os ambos demonstram carinho e respeito um pelo outro, ou seja, não difere dos alunos “ditos normais”, a comunicação entre professor x aluno surdo se dá através do intérprete, no entanto nos momentos de ausência ou mesmo pelos corredores da faculdade essa comunicação é presente, ela se dá através da Libras, pois a faculdade oferece curso para seus funcionários e professores e por sua vez os alunos ditos normais sentem-se motivados a falar Libras e assim buscam cursos fora da faculdade para poder se comunicarem melhor com seus colegas como também para dar resposta as exigências da sociedade  como futuros educadores. 

Considerações Finais
Sabemos que a escola regular, de uma maneira geral, não foi nem é planejada para acolher a diversidade de indivíduos, mas para a padronização, para atingir os objetivos educativos daqueles que são considerados dentro dos padrões de “normalidade”.
Todos nós somos diferentes. Na natureza convive-se com a diferença. Em sociedade também. Mesmo assim nas comunidades humanas as diferenças não são aceitas, prefere-se viver e lidar com iguais. Criam-se padrões de ser e de se comportar. Os que fogem deles são discriminados e muitas vezes ridicularizados.
Na escola essa realidade não se altera. Além das diferenças “naturais”, há os que têm dificuldade para aprender e por isso são diferentes, há os que não conseguem simpatizar com o regime disciplinar e também são diferentes.
A sociedade e a escola, mais os professores na sala de aula, devem estar preparados e capacitados para poder tratar e conviver com a diferença. Isto equivale a dizer que a instituição deve estar provida de recursos humanos e materiais que possam permitir uma solução adequada para a indisciplina, para a desatenção e para cada outro caso no âmbito em que se desenvolve o processo educacional.
O aluno que apresentar um problema seja de aprendizagem ou mesmo deficiência merece sentir-se acolhido, valorizado, incluído e não simplesmente tolerado no seu grupo.


Cada aluno é um aluno, único; e como tal deve ser considerado e tratado. A partir da individualidade do aluno, a partir dele e de seus problemas, com criatividade, dando uma de alfaiate, costurando todas as teorias e mais a última, a do aluno em pauta, pode-se chegar a uma tentativa de solução mais ou menos adequada. A diferença, é a marca indelével, propriedade inata e característica de cada um, conta muito no trabalho pedagógico e sob sua luz a escola pode atuar com probabilidade maior de êxito (FELTRIN, 2004, p. 17). 


            Mais do que nunca, não podemos ficar de fora dos acontecimentos, precisamos entender o que significa a Educação Inclusiva, democrática, voltada ao desenvolvimento das potencialidades e habilidades da criança, e não para aquilo que a criança com Necessidades Educacionais Especiais não conseguem fazer.
            Em nossa visão entendemos por Inclusão o ato de aceitar crianças, alunos que apresentam algum tipo de deficiência. Mas, é necessário dar ênfase a essa aceitação. Aceitar não significa permitir ou tolerar a presença de crianças em situação de deficiência em sala de aula. O ato de aceitar uma pessoa deficiente significa entender suas reais necessidades para que possa ser realizado um trabalho que desenvolva suas potencialidades e não as dificuldades.
            Inclusão é o ato de inserir, é permitir que o educando com deficiência interaja com os outros alunos ditos “normais”, criando possibilidades de integração e socialização dos mesmos na escola ou sala de aula. De nada adianta dizer que sua sala de aula tem crianças especiais se elas não são incluídas nas atividades educativas, no cotidiano escolar.
            Em nosso trabalho em nossos resultados parciais demonstramos este processo de inclusão que os alunos do curso de pedagogia da FAMETRO estão sendo inseridos, mas muito mais que uma pura inserção ou “colocação” no ambiente acadêmico, mas com interação em todas as atividades proposta pelos professores e ou coordenador de curso.
            Queremos ainda deixar claro que este estudo não está fechado, nosso trabalho se caracteriza por pesquisa em andamento. Ainda temos muito o que aprender e socializar no que tange ao processo de inclusão dos alunos surdos do curso de pedagogia da Faculdade Metropolitana de Manaus.

REFERÊNCIAS
BRASIL. Lei nº 10.098, de 23 de março de 1994. Estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras providências. Brasília: Congresso Nacional, 1994.
BRASIL. Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei no 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - Libras, e o art. 18 da Lei no 10.098, de 19 de dezembro de 2000. Brasília: Congresso Nacional, 2005.
BRASIL. Lei nº 10.436, de 24 de abril de 22. Regulamenta a Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS, de 24 de abril de 2002. Brasília: Congresso Nacional, 2002.
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SKLIAR, Carlos. Atualidade da educação bilíngüe para surdo. Porto Alegre: Mediação, 1999. V.1.



[1] Professora Mestre em Educação do Curso de Pedagogia da Faculdade Metropolitana de Manaus-FAMETRO e orientadora da pesquisa.
[2] Graduanda do 4º período do Curso de Pedagogia da Faculdade Metropolitana de Manaus-FAMETRO.

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